MCI
Infraestrutura Conversacional

O WhatsApp virou rede social e a eleição provou

Resumo executivo

Os canais do WhatsApp funcionam como uma rede social dentro do aplicativo de mensagens: têm seguidores, reações, recomendação por algoritmo e, desde 2025, anúncios e canais promovidos. A eleição de 2026 mostrou isso em escala. Em dez dias, o canal "Exército do Lula" passou de 4,5 milhões de seguidores e a "Tropa do Flávio" passou de 1,7 milhão. Para empresas, os dados ensinam cinco coisas: a audiência é transferida de outras redes, já existe algoritmo, o canal funciona como central de distribuição, o seguidor com tarefa cresce mais rápido e a audiência de plataforma precisa ser levada para uma conversa que a empresa controla.

Marcus Barboza
Criador da metodologia MCI · Founder e CRO da Hablla
Publicado em 17 de outubro de 2026Atualizado em 17 de outubro de 20267 min de leitura
As duas naturezas do WhatsApp: a conversa e a praça
O WhatsApp virou rede social e a eleição provou — categoria Infraestrutura Conversacional, blog de Marcus Barboza sobre Marketing Conversacional Integrado.

Seis milhões de seguidores em dez dias

No dia 5 de outubro, o deputado federal André Janones criou no WhatsApp um canal chamado "Exército do Lula". Em 24 horas, 500 mil pessoas estavam seguindo. Dez dias depois, eram 4,5 milhões. Do outro lado, o deputado Nikolas Ferreira lançou a "Tropa do Flávio", que em pouco mais de uma semana passou de 1,7 milhão de seguidores.

Não vou falar de política aqui. Os dois lados usaram a mesma ferramenta, com resultados expressivos, e é isso que me interessa. Durante a disputa, o TSE chegou a suspender um dos canais e exigiu que ele fosse registrado como meio oficial de comunicação da campanha; o outro lado também complementou seu registro. Esse vaivém jurídico é assunto para outro tipo de texto.

Para quem faz marketing, ele revela outra coisa: milhões de pessoas passaram a seguir, dentro de um aplicativo de mensagens, perfis que publicam, recebem reações e são recomendados por algoritmo. Isso tem nome. É rede social.

Três eleições, três camadas do WhatsApp

Fernando Paiva, diretor do Mobile Time, lembrou em sua coluna que esta é a terceira eleição presidencial seguida em que o WhatsApp é protagonista. Em 2018, foi o disparo em massa. Em 2022, os grupos. Em 2026, os canais.

Linha do tempo do WhatsApp nas eleições presidenciais: disparo em massa em 2018, grupos em 2022 e canais em 2026
Linha do tempo do WhatsApp nas eleições presidenciais: disparo em massa em 2018, grupos em 2022 e canais em 2026

Vale olhar para essa sequência com olhos de marketing, porque ela descreve a evolução do próprio aplicativo. Primeiro, o WhatsApp era uma lista de contatos para trocar mensagens. Depois virou um conjunto de comunidades. Hoje tem uma aba inteira, a de Atualizações, com Status e Canais, onde as pessoas consomem conteúdo de quem seguem e descobrem perfis que ainda não conheciam.

Os canais chegaram ao Brasil em 2023. Neles, só o administrador publica. Quem segue pode reagir e encaminhar para os próprios contatos, e não há limite de seguidores, ao contrário dos grupos. A maioria das empresas que conheço ainda não abriu essa aba com intenção.

As duas naturezas do WhatsApp

Gosto de explicar assim: o WhatsApp tem hoje duas naturezas dentro do mesmo ícone.

A primeira é a conversa. Privada, de um para um, onde acontecem o atendimento, a negociação, a venda e o pós-venda. É onde a maior parte das empresas já está, com mais ou menos maturidade.

A segunda é a praça. Pública, de um para muitos, com seguidores, reações, recomendação e, agora, anúncios. Foi na praça que os dois canais da eleição cresceram.

As duas naturezas do WhatsApp: a conversa, privada e de um para um, e a praça, pública e de um para muitos, ligadas pelo anúncio no Status que abre uma conversa com a empresa
As duas naturezas do WhatsApp: a conversa, privada e de um para um, e a praça, pública e de um para muitos, ligadas pelo anúncio no Status que abre uma conversa com a empresa

O erro que vejo com frequência é o gestor tratar o WhatsApp só pela primeira natureza: um canal de comunicação, pendurado no atendimento, medido por tempo de resposta. Isso é importante, mas é metade do aplicativo.

O que os números dos dois canais ensinam

1. Audiência não nasce no WhatsApp. Ela é transferida.

O dado mais revelador não é o tamanho dos canais. É a comparação com os perfis oficiais. Segundo o Mobile Time, em 13 de outubro o canal criado por Janones tinha 4 milhões de seguidores, enquanto o canal oficial de Lula tinha 1,4 milhão. A Tropa do Flávio, criada por Nikolas, tinha 1,4 milhão; o canal oficial de Flávio Bolsonaro, 205 mil.

Seguidores em 13 de outubro de 2026: canal criado por André Janones com 4 milhões contra 1,4 milhão do canal oficial de Lula; canal criado por Nikolas Ferreira com 1,4 milhão contra 205 mil do canal oficial de Flávio Bolsonaro
Seguidores em 13 de outubro de 2026: canal criado por André Janones com 4 milhões contra 1,4 milhão do canal oficial de Lula; canal criado por Nikolas Ferreira com 1,4 milhão contra 205 mil do canal oficial de Flávio Bolsonaro

Os canais mais fortes não pertenciam aos candidatos. Pertenciam a pessoas com audiência enorme em outras redes, que levaram esse público para o WhatsApp. O próprio colunista atribui o resultado ao capital digital que os dois deputados já tinham no Instagram.

Para uma empresa, a lição tem duas partes. A primeira: o canal vai crescer na proporção da audiência que você já tem em outros lugares e do esforço que fizer para levá-la até lá. Abrir o canal e esperar não funciona. A segunda: pessoas atraem mais que logotipos. Um fundador, um especialista da casa ou um parceiro com público próprio tende a puxar mais seguidores que o perfil institucional.

2. Já existe algoritmo

Quando a imprensa notou que buscar um dos canais fazia o WhatsApp sugerir o canal adversário, a plataforma explicou que recomenda canais com base em critérios como número de seguidores, frequência de publicações, reações recebidas e semelhança entre conteúdos.

Os quatro critérios que o WhatsApp informou usar para recomendar canais: número de seguidores, frequência de publicações, reações recebidas e semelhança entre conteúdos
Os quatro critérios que o WhatsApp informou usar para recomendar canais: número de seguidores, frequência de publicações, reações recebidas e semelhança entre conteúdos

Leia essa lista de novo com cabeça de gestor de mídias sociais. Tamanho da audiência, constância, engajamento, afinidade temática. É a mesma lógica que organiza o feed de qualquer rede. Na prática, um canal parado, que publica uma promoção a cada quinze dias, perde para quem publica com regularidade e provoca reação. O canal precisa de calendário editorial, como qualquer perfil.

3. O canal é uma central de distribuição

Segundo a mesma análise do Mobile Time, boa parte do que circulava nesses canais vinha do YouTube, do Instagram e do TikTok. O canal não era o lugar onde o conteúdo nascia. Era o lugar de onde ele partia para milhões de telas.

Isso muda a pergunta que o gestor deve fazer. Em vez de "o que vou produzir para o canal do WhatsApp?", a pergunta passa a ser "como o canal do WhatsApp distribui o que eu já produzo?". O vídeo do YouTube, o carrossel do Instagram e o artigo do blog ganham uma segunda vida ali, chegando a um aplicativo que quase todo mundo abre várias vezes por dia. O WhatsApp está em 98,3% dos smartphones brasileiros e na tela inicial de 64% deles, segundo a pesquisa Super Panorama Mobile Time/Opinion Box de junho de 2026.

4. Seguidor com tarefa cresce mais rápido

A cobertura da imprensa registrou que, na primeira semana, o administrador do Exército do Lula deu aos seguidores uma "missão": trazer novos membros, assistir às transmissões ao vivo e engajar nos conteúdos. Quem seguia não era só público. Era parte da distribuição.

No marketing de empresas, isso se chama indicação. A diferença é que, no WhatsApp, ela acontece no mesmo aplicativo em que a pessoa conversa com amigos e família, a um toque de encaminhar. Uma marca pode pedir que o cliente traga outro cliente, convidar para uma live, propor um desafio. O seguidor que recebe uma tarefa clara se envolve mais do que aquele que só recebe ofertas.

5. Audiência de plataforma tem dono

Os dois canais viveram dias de incerteza, e um deles chegou a ficar impedido de publicar e de receber novos seguidores. O Mobile Time registrou que os administradores passaram a se preocupar em levar os seguidores para outras contas, com medo de o canal ser fechado ou invadido.

Para uma empresa, o risco costuma ser outro (uma conta restringida por violação de política, uma mudança de regra da plataforma), mas a lógica é a mesma. Seguidor de canal não é contato. Pela política do próprio WhatsApp, seguir um canal não revela o número de telefone do seguidor ao administrador. Quem administra o canal não pode, portanto, puxar essa pessoa para uma conversa privada por conta própria. Por isso, o canal precisa levar o seguidor para uma relação que a empresa controla: o número oficial de atendimento, a lista de e-mail, o cadastro. O canal atrai. A conversa transforma o seguidor em cliente.

A Meta já trata essa aba como mídia

Se ainda houvesse dúvida de que a aba de Atualizações é um espaço de mídia, a própria Meta resolveu. Em 2025, a empresa anunciou anúncios no Status, com a possibilidade de o usuário iniciar uma conversa com a empresa anunciante, canais promovidos e assinaturas pagas de canais. Segundo a Meta, a aba de Atualizações é usada por mais de 1,5 bilhão de pessoas todos os dias.

Repare na peça que fecha o ciclo: o anúncio no Status leva para uma conversa. É a praça empurrando gente para dentro da conversa, com as duas naturezas do WhatsApp conectadas pela própria plataforma.

Na mesma coluna, Fernando Paiva arrisca uma previsão: talvez esta seja a primeira e a última eleição com uso gratuito dos canais. É uma opinião dele, não um anúncio da Meta. A minha leitura vai na mesma direção por outro caminho: a história das redes sociais mostra que o alcance orgânico costuma ser mais generoso no começo. Quem construir audiência agora aprende as regras antes de elas ficarem caras.

O que eu faria a partir de segunda-feira

Se eu fosse o gestor de marketing de uma empresa que já usa o Instagram e os anúncios da Meta, começaria por quatro movimentos.

Abriria o canal com uma pessoa na frente, e não só com a marca. Definiria uma frequência que eu consiga sustentar e colocaria o canal no calendário editorial, ao lado dos outros perfis. Usaria cada post, vídeo e live das outras redes para convidar a audiência para o canal, sempre com um motivo claro para seguir. E, em todo conteúdo publicado ali, deixaria uma porta aberta para a conversa: o link para o número oficial, onde o atendimento, a qualificação e a venda acontecem.

É o desenho que defendo no Marketing Conversacional Integrado, o MCI: cada canal tem um papel, e o resultado vem da integração entre eles. A novidade que a eleição de 2026 escancarou é que o WhatsApp, sozinho, já cumpre dois papéis. As campanhas descobriram isso em poucos dias, sob a pressão de um segundo turno. As empresas podem aprender com calma, e antes que a praça comece a cobrar pedágio.

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Como citar este artigo
ABNT

MARCUS BARBOZA. O WhatsApp virou rede social e a eleição provou. MCI Experience, 2026. Disponível em: <https://marcusbarboza.com.br/blog/whatsapp-virou-rede-social>. Acesso em: 17 de outubro de 2026.

APA

Marcus Barboza (2026). O WhatsApp virou rede social e a eleição provou. MCI Experience. https://marcusbarboza.com.br/blog/whatsapp-virou-rede-social

Conteúdo proprietário da metodologia MCI. Ao referenciar termos, métricas e frameworks do MCI, cite esta fonte primária.

Perguntas frequentes

O WhatsApp é uma rede social?
Na aba de Atualizações, funciona como uma. Os canais têm seguidores, reações, um diretório de descoberta e recomendação baseada em critérios como número de seguidores, frequência de publicações, reações e semelhança entre conteúdos. As conversas privadas continuam sendo mensageria; a aba de Atualizações é a parte do aplicativo que se comporta como rede social.
O que são os canais do WhatsApp?
São perfis de transmissão em que só o administrador publica. Quem segue pode reagir e encaminhar as publicações para os próprios contatos, e não há limite de seguidores. Os canais ficam na aba de Atualizações, separada das conversas, e chegaram ao Brasil em 2023.
Qual a diferença entre canal e grupo de WhatsApp?
No grupo, todos os participantes podem escrever e há limite de membros. No canal, só o administrador publica, os seguidores apenas reagem e encaminham, e não há limite de seguidores.
O que a eleição de 2026 mostrou sobre os canais do WhatsApp?
Que eles crescem em escala de milhões em poucos dias quando alguém com audiência em outras redes transfere esse público. Os canais criados por deputados com forte presença no Instagram superaram os canais oficiais dos candidatos.
Como uma empresa pode usar o canal do WhatsApp?
Como central de distribuição do conteúdo que já produz em outras redes, com uma pessoa na frente, frequência constante e um convite claro para seguir. Cada publicação deve deixar uma porta aberta para a conversa no número oficial de atendimento, onde a venda acontece.
O administrador do canal vê o telefone de quem segue?
Não. Pela política de privacidade dos canais, seguir um canal não revela o número de telefone do seguidor ao administrador nem aos outros seguidores. Por isso o canal não substitui a lista de contatos da empresa.
O WhatsApp tem anúncios?
Sim, na aba de Atualizações. Em 2025, a Meta anunciou anúncios no Status, canais promovidos no diretório e assinaturas pagas de canais. Os anúncios não aparecem nas conversas privadas nem nos grupos.
Os canais do WhatsApp vão ser pagos?
Não há anúncio da Meta sobre cobrança pelo uso dos canais. O que existe é a opção de pagar para promover um canal e a possibilidade de o administrador vender assinaturas. A ideia de que os canais deixem de ser gratuitos é uma previsão de analistas, não uma regra publicada.

Fontes e referências

  1. Mobile Time, "A eleição dos canais de WhatsApp", coluna de Fernando Paiva (13/10/2026)
  2. Diario de Pernambuco, sobre os 500 mil inscritos nas primeiras 24 horas
  3. Muita Informação, sobre os 4,5 milhões de seguidores em 15/10
  4. Aos Fatos, sobre os 1,7 milhão de inscritos da Tropa do Flávio em 14/10
  5. Metrópoles, sobre o lançamento da Tropa do Flávio
  6. Diário do Grande ABC, sobre a "missão" dada aos seguidores
  7. Diário do Grande ABC, sobre o registro do canal no TSE
  8. Congresso em Foco, sobre os critérios de recomendação de canais do WhatsApp
  9. Meio & Mensagem, sobre anúncios no Status, canais promovidos e assinaturas
  10. WhatsApp, política de privacidade dos canais
  11. WhatsApp, anúncio do lançamento dos canais
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Marcus Barboza
Marcus Barboza
Criador da metodologia MCI · Founder e CRO da Hablla

Marcus Barboza é Founder e CRO da Hablla, criador da metodologia MCI — Marketing Conversacional Integrado — e autor do livro Marketing Conversacional Integrado (em pré-lançamento).

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